Saturday, April 4, 2009

A decisão do FASB

Semana passada foi marcada pela aparentemente bem sucedida reunião do G-20, mas uma decisão do Financial Accounting Standards Board (FASB) acabou sendo tão importante, senão mais, para o bom humor do mercado. O FASB decidiu relaxar algumas regras contábeis que determinavam a marcação à mercado de certos ativos considerados ilíquidos. A regra contábil de marcação à mercado determina que as empresas precifiquem seus ativos pelo valor pelo qual eles poderiam ser vendidos em um curto espaço de tempo e não pelo seu valor de custo. Apesar de, no geral, esta ser uma regra que traz maior transparência, ela apresenta problemas quando os ativos são ilíquidos. Se você tiver que vender imediatamente um ativo ilíquido você terá que oferecer um desconto provavelmente maior do que o fluxo de caixa do ativo trazido a valor presente. Daí os bancos não quererem vender esses ativos (que também são chamados de tóxicos).

Enquanto os bancos seguram esses ativos, é muito difícil estabilizar o sistema financeiro. Por um lado, a regra de marcação à mercado faz com que os bancos tenham que reprecificar os ativos toda a vez que o mercado piora. Esta reprecificação, apesar de não impactar o fluxo de caixa do banco, gera um prejuízo contábil que é abatido contra o capital do banco. A quantidade de dinheiro que um banco pode emprestar (ou de ativos que ele pode carregar) é um múltiplo do seu capital. Se o capital diminui, o banco precisa reequilibrar o seu balanço, o que é feito através de recomposição de capital (emissão de ações) ou disposição de ativos. Essas são alternativas complicadas nos dias de hoje. Por um lado, as ações estão sendo negociadas a preços historicamente baixos, o que significa que para conseguir levantar o capital necessário o banco teria que emitir um número significante de novas ações o que diluiria seus acionistas atuais além de empurrar o preço das ações ainda mais para baixo. Por outro lado, vender seus ativos no mercado pode forçar novas marcações para baixo do resto do seus ativos (e indiretamente os ativos similares de outros bancos), o que cria um círculo vicioso.

Outro problema da regra de marcação à mercado é que ela dá aos bancos uma flexibilidade razoável na fixação do preço dos ativos. Essa flexibilidade faz com que o mercado fique desconfiado de que os ativos estão, na realidade, com um preço maior do que eles valem na prática. Eu já ouvi diversos economistas dizendo que se os bancos realmente fossem precificar seus ativos pelo valor pelo qual estes poderiam ser vendidos imediatamente, todos ficariam descapitalizados.

Por fim, para defender seus balanços contra a iminente descapitalização, os bancos simplesmente pararam de emprestar dinheiro. Isso fez com que a crise bancária passasse para o resto da economia. Daí porque o plano Geithner quer criar um mecanismo para limpar o balanço dos bancos.

Apesar de, na visão de alguns, a revisão da regra de marcação à mercado para um sistema de contabilização de custo (neste sistema você somente apura o a receita/prejuízo de um ativo no momento da venda) ser apenas uma mudança ótica, ela de fato gera uma maior estabilidade no mercado na medida em que os bancos deixarão de apresentar prejuízos contábeis a cada trimestre em função da não reprecificação dos ativos. Na prática, a nova regra diminui a capitalização requerida dos bancos, o que é benvindo em um momento de crise. Uma das idéias mais interessantes que ouvi foi a de que a capitalização bancária deveria ser anticíclica, ou seja os bancos deveriam ser forçados a guardar dinheiro quando a economia vai bem e liberados para emprestar quando a economia vai mal.

Por outro lado, a nova regra também torna os bancos menos dispostos a vender seus ativos tóxicos, o que pode ser um problema para a implementação do Plano Geithner.

Para enriquecer a discussão, fiz uma seleção de links relacionados à nova regra contábil da FASB.

FASB

Financial Times

Accounting Observer

Financial Executives Blog

Senseoncents

Naked Capitalism

Financial Times Blog